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“SE EU TIVESSE OUTRA VIDA, EU GOSTARIA DE NASCER JÁ SENDO PROFESSORA”.

DIA DOS PROFESSORES – UM RELATO SOBRE A MINHA 1ª PROFESSORA

“SE EU TIVESSE OUTRA VIDA, EU GOSTARIA DE NASCER JÁ SENDO PROFESSORA”.

Para que meu pai não me tirasse definitivamente da escola, ela foi até à cidade mais próxima e comprou canetas e lápis de reserva para substituir os que eu perdia. Mesmo considerada por alguns como uma criança muito inteligente, eu também era visto como lerda e costumava esquecer quase tudo, inclusive o material escolar. Meu pai, pessoa de pouquíssima paciência havia me ameaçado de me tirar da escola por causa disso.

 

 

Mas heróis terráqueos não usam capa e na maioria das vezes pertencem ao gênero feminino e são professoras. Ela não era uma educadora qualquer. Era a professora Maria Zilda de Araújo Silva, na época tinha apenas 15 anos de idade e já era respeitada naquela região pelo seu amor e dedicação ao magistério.

 

 

45 anos depois retornei à casa daquela que foi a minha primeira professora. Foi um momento indescritível. Ela ficou me olhando atentamente e disse que eu mudei muito e nem parecia aquele garotinho magro e tão pequeno que ela conheceu aos 7 anos de idade.

 

 

Ao saber que eu era professor, ela me perguntou se eu amava a profissão. Eu titubiei e ela foi logo emendando: “Eu amo muito ser professora. Se eu tivesse outra vida, gostaria de nascer já sendo professora”, afirmou.

 

 

Zilda também demonstrou ter ótimas recordações da sua primeira professora: “Lembro-me das mãos macias e amáveis da minha primeira professora. Ela era uma ternura de pessoa”, disse ela usando uma das mães para tocar a outra mão numa espécie de reconstituição da cena.

 

 

Na sequência Zilda relembrou que quando eu era criança a minha mãe me pedia para fazer a lista de compras da mercearia e eu, que também era seu vizinho próximo, corria todas as vezes até a sua casa para que ela fizesse a correção das palavras. “Você errava poucas vezes e voltava para casa com uma alegria imensa como se tivesse ganhado uma grande premiação”, destacou.

 

 

Ela alfabetizou crianças durante 28 anos consecutivos e ficou reconhecida pela sua ímpar habilidade de ensinar crianças a ler e escrever. Mesmo depois de aposentada, continuou trabalhando mais seis meses para ajudar a turma do 1º ano e também repassar um pouco da sua experiência a uma colega mais nova.

 

 

Maria Zilda é filha do casal Alfredo Gabriel (já falecido) e dona Creuza. Eles têm 10 filhos, sendo que quatro seguiram a profissão de Zilda. Seu Alfredo foi vereador e um desbravador daquela região, inclusive articulou para que a comunidade, pertencente ao município de Senador Elói de Souza-RN,  recebesse o nome de São Severino. Nos momentos de folga eu sempre ficava conversando com ele e de tanto fazer-lhe perguntas ele me colocou o apelido de padre!

 

 

Retornei em julho deste ano e reencontrei-me com alguns irmãos, a professora Zilda, dona Creuza e uma mesa repleta de comidas gostosas ainda no café da manhã. Depois fomos servidos com um churrasco e mais uma série de iguarias típicas da região.

 

 

Neste encontro, uma das coisas que mais me chamou atenção foi a alegria da Dona Creuza. Aos 88 anos, a matriarca da família esbanja saúde, disposição e uma alegria que me contagiou e causou-me inveja! Em companhia da minha esposa e dos anfitriões, ficamos batendo um longo papo com Dona Creuza. Enchi-lhe de perguntas e ela respondeu uma a uma com um sorriso largo no rosto e muitas gargalhadas.

 

 

De uns anos para cá eu resolvi manter um estoque de canetas, lápis e borracha para doar aos alunos que perdem seus materiais ou simplesmente se desgastam com o uso. Faço isso sempre que posso como uma forma de compensação pelos ótimos professores e amigos que eu tive (e tenho) na vida.

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